offscreen things: o fim de uma era

a maior marca da netflix chegou ao fim e seu legado é eterno. o que podemos esperar dessa eternidade, entretanto, só o tempo nos dirá.

muito se tem contado as décadas começando pelo ano terminado em 6 ultimamente, não sei o quão orgânico é esse movimento ou fabricado por interesses sombrios que descobriremos só nos próximos anos, mas vou me utilizar dessa contagem (tanto porque pessoalmente me é agradável, quanto porque ela se encaixa no texto de hoje). e é nesta década 16-25 que vemos a maior mudança nos padrões de consumo de produções audiovisuais, com os serviços de streaming dominando o mercado e causando um estrago imprevisível em todos os seus concorrentes, principalmente à tv por assinatura que — ao contrário do que o atual presidente do flamengo, luiz eduardo baptista, previu enquanto presidia a sky em 2014— não foi capaz de comprar a netflix, mas encontrou sua total obsolecência nas mãos dela.

e stranger things está intimamente ligado a todo esse movimento; lançada no primeiro ano dessa década começada pelo meio e terminada no último, a série se consolidou como a maior marca da netflix por ser muito boa em combinar vários fatores que se tornariam a base da empresa: entender as tendências cíclicas da cultura ao retratar os anos 80 na data exata que bate aquele famoso reboot de 30 anos; trazer no elenco alguém consagrado no passado para ser a imagem que faça as pessoas de todas as idade consumam seu produto, mesmo que ele se proponha a ser infanto-juvenil; fomentar discussões intermináveis nas redes sociais para fazer que a duração da obra seja maior que o que está na tela etc.

hoje se fala muito sobre a principal marca da netflix ser a simplicidade: títulos cada vez mais autoexplicativos e obras expositivas a ponto de serem assistíveis em uma segunda tela. não discordo, mas em 2016 ainda não era assim e stranger things e não caiu na maldição, entretanto, em 2025, podemos ter visto a série pular desse ponto para o próximo estágio da empresa: o offscreen. agora não precisamos nem assistir mais à série em uma segunda tela, porque todas as coisas serão explicadas pelos criadores nas redes sociais. e o sucesso que esse movimento causou pode ser uma péssima notícia, porque sim, todo mundo está xingando o que está acontecendo, o que não deixa de ser um sucesso, visto que stranger things segue sendo a principal trend, mesmo que criticada.

se em 2016 stranger things serviu de testes para coisas que fariam a netflix criar toda a sua linha editorial, em 2025 o teste foi mais agressivo e os resultados foram perfeitos e, se forem aplicados nesta décadas que começamos há pouco, devemos temer pelo futuro do audiovisual. afinal, muito em breve, tudo que existirá será netflix e disney. muito em breve, deveremos optar entre 1) a exposição que faz as imagens e sons aparecendo na tela serem só umas luzinhas aleatórias para serem explicadas e comentadas depois no twitter ou 2) franquias intermináveis de princesas, heróis e resgate de obras muito bem terminadas que não queriam uma continuação ou um novo live-action ou uma ressignificação, mas vão receber sim, porque a empresa precisa lucrar. muito em breve estaremos entre a cruz e a espada se quisermos assistir alguma coisa.

não estou aqui para ser o arauto do fim, afinal achei bastante divertido o encerramento de stranger things, mas divertido não era a palavra que eu gostaria de usar para algo que marca o final de toda uma construção de uma década. os erros da série não podem ser minimizados com o característico “é uma obra longa, normal ter furos”, porque a 5a temporada é cheia de problemas dentro de si. o pior dos erros é o que outrora fora o maior acerto da série: o senso de urgência. nada deixava tenso, nada dava a ideia de que poderia dar ruim: a luta contra o devorador de mentes durou menos do que duraria, o núcleo solo de ação do jim hopper não existiu, as quase mortes de steve e nancy de quase pouco tiveram. até a cena do término da nancy com o jonathan que estava indo muito bem em causar essa angústia, prolongou-se mais do que deveria e perdeu toda a tensão. além disso, a série tratou o núcleo militar com uma passividade que eles nunca pareceram uma real ameaça e Linda hamilton virou estatística junto com a winona rider como pessoas que estão ali para atrair o público e tanto faz seus personagens. o maior erro da 5a temporada, inclusive, foi escantear a winona, porque deixou muito evidente as limitações de algumas pessoas no elenco que nas temporadas passadas pareciam geniais, mas sem ter ela de apoio, mostraram-se abaixo da média.

mas a série também teve seus acertos, infelizmente poucos no roteiro e na direção. o quarteto “young adult” entregou um carisma muito forte e, apesar de gostar muito mais dos outros três, quero ressaltar o trabalho do charlie heaton, porque todas as nuances que ele fez para construir seu jonathan foram um show à parte; na primeira parte da temporada, sendo um personagem tão insuportavelmente coitado e, depois do término — sem mudar as expressões faciais — aliviar a tensão do corpo e virar outra pessoa, até chegar no final da série e conseguir ser uma terceira pessoa, toda empolgada de estar vivendo o sonho das próprias nerdices. para quem é sommelier de atuação, eu recomendo muito que o que o charlie fez nessa 5a temporada seja reassistido várias vezes, porque muito se criticou a millie por ter feito uma atuação inexpressiva por ter sempre a mesma cara, mas o charlie mostrou que é possível sim fazer uma atuação incrível sem precisar de um repertório de expressões fora do comum, o corpo é o instrumento de trabalho do ator e ele soube usar partes do corpo que não conseguimos ver.

(concordo que a atuação da millie foi tenebrosa, mas é muito mais que só a cara de tacho. a atriz não estava na personagem e a personagem não estava na atriz, não sei onde foi o passei, mas elas só não se encontraram nem por um segundo)

vou me limitar a falar do charlie, mas o elenco de maneira geral foi o responsável pela maioria dos acertos, inclusive os escanteados david, winona e linda que fizeram milagres com as migalhas que receberam do roteiro.

e o mais engraçado é que há pouco falei sobre a disney e o maior acerto do roteiro de stranger things foi exatamente a marca registrada do mickey mouse: fanservice. o último golpe ser da joyce, as interações 1×1 que concluem ciclos, o d&d sendo jogado no final e a holly seguindo a tradição, nancy se oferencendo como isca, a citação de montauk e muitas outras coisas que recompensam a audiência pelos anos passados juntos com aquele universo. a principal delas sendo, com certeza, o discurso do dustin e a honra do legado do eddie. o fanservice é uma parada que é muito criticada, porque ele descola a obra de si e entrega o que o público quer e, ok, artísticamente é meio pobre mesmo, mas na indústria do entretenimento é uma saída bem válida e que tem seu charme, ainda mais quando a direção e o roteiro já se perderam completamente de si e precisam entregar alguma coisa. ninguém odeia o homem-aranha no way home, há quem desgoste, quem ache ruim, mas é um filme que não vai ter haters porque ele fez exatamente o que se propôs, presentear o público de três diferentes gerações do herói na televisão. nesse ponto, também acredito que o ódio a stranger things seja uma reação exagerada, porque a série nunca se propôs a caminhar pela sanguinolência que alguns fãs pareciam querer ver e ela já nasceu como algo que se estende para fora de si, desde a primeira temporada ela existe em conjunto com a sua audiência e trazer essas recompensas foi um grande acerto.

mesmo um grande acerto, o fanservice nos leva de volta ao início. porque stranger things não é só uma série, ela é a principal marca da netflix, o primeiro sucesso a atingir números astronômicos e o molde para toda a sequência da folha editorial da empresa. e se a empresa aplicar no 26-35 a mesma fórmula do 16-25 (de replicar tudo que deu certo financeiro em st em todas as outras produções da plataforma), isso se torna algo bastante preocupante, porque podemos esperar que daqui para frente tenhamos cada vez menos obras para serem assistidas de corpo e alma e cada vez mais coisas que são mais importantes offscreen que na tela e cada vez mais expositivas. é bastante natural empresas se tornarem mais expositivas para vender mais e isso acontece desde sempre, o problema fica sério quando essas empresas compram todas as outras e é aqui que as coisas começam a ficar preocupantes, porque a difusão artística e cultural vai ser cada vez mais monopolizada e tudo que for de fácil acesso vai estar completamente empobrecido pela necessidade de agradar o público e de ser cada vez mais assistível em segunda tela.

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