ontem foi um diazinho desgraçado, me testou do amanhecer ao cair da tarde, quando senti uma grande brisa ao tomar um latão de brama duplo malte depois de passar o dia todo de café, cigarro e quatro passatempo. recomendo a brisa, não recomendo as ações.
meus planos para ontem eram claros: 8h30 levar carvão no meu melhor cliente e depois ir levando nas outras muitas pessoas que faltavam e se deus quiser conseguir acabar tudo antes das 17hrs. só que, né? coisas aconteceram que a fiorino só ficou liberada para o meu uso às 11hrs e esse horário é impossível levar carvão no cliente que havia escolhido para iniciar a jornada. então comecei a vender pro outro lado da cidade e coisas aconteceram e meu whatsapp tinha um áudio encaminhado desse cliente falando que era para eu ir lá urgente. atravessei a cidade para fazer o que eu deveria ter feito 8h30.
corri lá, sem carvão suficiente, mas bastaria até eu voltar no fim da tarde.
fiz meu melhor cliente, realinhei as expectativas e a rota, recarreguei e retornei às vendas e coisas aconteceram de novo e meu whatsapp mandava eu passar em uma cliente aleatória em um local complexo de se descarregar. adaptei e coisas aconteceram de novo e teria que ir em outro lugar arranjar troco para uma cliente. mas tudo é culpa minha, porque eu poderia já ter adiantado as vendas. só que em semana de feriado me preparei para começar as coisas na quinta-feira e coisas aconteceram e não tive a fiorino à minha disposição no dia.
coisas acontecem com muita frequência e agora, semana que vem não terei carvão porque coisas aconteceram e o futuro das vendas está incerto porque as coisas acontecem de modo que a negociação com os meus fornecedores sempre se dá da maneira mais facilitada para eles e que eu tenha que lidar com as dificuldades causadas por isso, porque as coisas que acontecem para facilitar pros outros não conseguem levar esse chumbo e sobra pra quem consegue. ou seja, coisas acontecem pedindo chumbo no lombo, não no lombo delas, claro.
pronto, desabafo feito, e daí? o que isso tem a ver com o texto de ontem e com o de hoje?
tudo. mas não tudo pro lado do “aceno de virtude” de olhem como sou coitadinho e virtuoso, olha que orgulho de conseguir terminar as vendas de carvão em menos da metade do tempo que eu teria e sem comer nada. não é esse o ponto. é o extremo oposto.
eu me odeio.
e o tema de hoje é o quão difícil é essa parada de sentir orgulho por algo que se odeia e acho que isso vai tornar tudo mais divertido ainda.
na questão do carvão meu ódio é pela mesma coisa do geral, a comunicação clara e séria sobre coisas que eu preciso ou que vão me beneficiar é complexa. para as coisas que acontecem pararem de acontecer, eu preciso chegar na fonte delas e falar, simples. acontece que, antes de eu excluir tudo que estava escrito no blog, o meu primeiro post era uma carta para pedir que as coisas que estavam acontecendo na época parassem de acontecer. 1/10 delas pararam, o resto continuou exatamente igual, porque pelo amor de deus, né? quem é o bucha que não consegue chegar e falar “isso tá uma merda e não dá pra continuar assim“ e ao invés disso manda uma carta. e é engraçado pensar como isso é um padrão. quando meu tio (na época patrão) me criticou por umas paradas ilógicas, eu escrevi uma carta. nas reuniões de teatro, eu sempre tomava a palavra com “slides de papel“, que eram muitas cartas. e, mais recentemente, eu arruinei a minha primeira amizade pós-pandêmica (que foi essencial para me salvar dos pavores que aquela época carimbou em mim) porque eu não sei agir que nem gente e preciso dessa overdose de palavras escritas para exprimir o que considero sério e importante para mim. preciso da overdose de palavras para fugir de lidar com o que elas são incapazes de exprimir.
(é um pouco engraçado pensar que nossa última conversa vai rondar para sempre na minha cabeça com eu tentando usar “quem é pau pra toda obra, tem obra toda hora” como conselho, sendo que a frase é tudo que eu preciso para coisas pararem de acontecer.)
não fiquem com saudades, yuqi volta para o assunto logo mais.
enquanto eu tentava lidar com o ritmo de hiperssocialização que me enfiei para fugir dos pensamentos, fugia da viagem que queria muito fazer para descansar porque as coisas que acontecem iriam junto e queria descansar delas (mesmo assim, elas arranjaram um jeito de floodar meu whatsapp cada segundo fazendo as coisas acontecerem mesmo a distância), fugia — sem nunca sofrer perseguição — da pessoa que eu mais gostaria de fugir para ao invés de fugir de, fugia de confrontar o dono do bar filho da puta que me tacou no chão e ficou semanas fofocando por aí que caí de bêbado e fiz drama falando que ninguém me amava, fugia de parar pegando disciplina em janeiro para fazer e fugia da disciplina não conseguindo nem olhar para o artigo que eu precisaria arrumar, fugia da responsabilidade de pensar atribuindo esta a uma amiga a quem contava minha vida em detalhes e ela me contava tudo que eu deveria pensar ou deixar de pensar sobre o que estava acontecendo.
enquanto eu fugia, yuqi ia. ia para a itália, para os estragos unidos, para o bairro chinês que chamam de taiwan, para jogo da nba, eventos de moda, lançamento de marcas etc… tudo isso, enquanto mantinha as intermináveis viagens entre china e “coreia” e gravava comerciais e escrevia música e participava de programa e dava entrevistas e lançava projeto e fazia show etc até que ela ia para a tailândia, batia a cabeça no show e, aquele março que ela começou postando “stay positive happy march always”, terminou com ela pedindo desculpas por ter tido uma crise de tontura enquanto gravava um comercial na china um dia depois do acidente em bangkok. ela pedindo desculpas por não cuidar da própria saúde e pedindo desculpas por ser obrigada a descansar e falando que iria “trabalhar duro” para se recuperar o mais rápido possível.
eu desejava ir e parar de fugir.
mas fugir sempre foi o que eu soube fazer.
e para cada fuga sempre cheguei a ótimos lugares. fugir esse tempo todo; fez eu me conectar e reconectar com uma galera maravilhosa, fez eu viver altas aventuras dignas de serem recontadas por james joyce em uma epopeia prosaica de 900 páginas narrando um dia, fez eu sentir um nível de confiança nas pessoas que eu não sabia que era possível (porque eu confio em todo mundo, mas nunca tinha chegado no nível de sentir a necessidade de confidenciar e isso só aconteceu porque pela primeira vez me permiti desconfiar sem culpa, que loucura, né), fez eu avisar para alguém que gostava dela num período que vivemos “quadrilha” do drummond, fez eu chorar no rolê (e foi por causa de um pm, cara), fez eu descobrir que em gente de capital a gente confia sempre com um olho aberto e um pedaço de pau debaixo do travesseiro, fez eu sentir genuínos ódios (por pessoas fora da tv ou dos livros) que são tão gostosos que me arrependo de ter me privado disso por tanto tempo e fez eu parar de fumar. e fez meu mundo desabar e eu não conseguir retomar as rédeas por algo que não deveria me impactar tão severamente, mas me destruiu porque percebi que fugir não pode resolver tudo. e que, mesmo fugir sendo a minha especialidade e eu me orgulhando muito de como sou bom em evadir e encontrar coisas maravilhosas, enquanto fujo, a evasão ainda é um assunto que me dói doído.
não me arrependo de nenhuma das minhas evasões acadêmicas. eu seria um ótimo professor de matemática e um péssimo fisioterapeuta e tanto faz. poderia já ser letrólogo hoje e não teria vivido o teatro, jamais trocaria o vivido. eu sei disso e me basta. mas essa é a minha experiência, não consigo imaginar o quão doído seja para outra pessoa ser obrigada pelo peso do dia a dia a seguir esse caminho, ser silenciosamente obrigada e, num primeiro momento, fiz tudo ser sobre mim e pensei que o que me atormentava era o sentimento de impotência de não ter conseguido fazer nada para impedir. mas o que me atormentava de verdade era o silêncio, saber que a pessoa já estava há meses pensando incansavelmente sobre isso e tinha compartilhado muito pouco sobre tantos tormentos e saber que ela não era a única, que quase todo mundo está o tempo todo lutando contra as esmagadoras vozes internas.
parei de fugir e comecei a confrontar. entrei em um período de confrontos quase diários para tentar quebrar os silêncios em um desespero em me fazer útil e foi um período desgastante, mas produtivo, porém minha utilidade de fato não existiu e, mesmo se existisse, seria inútil, porque é impossível trazer de volta tempos passados e evitar que coisas aconteçam. não importa o quanto nos façamos úteis para o presente, ele não corrigirá as inutilidades passadas e nem será suficiente para que no futuro não pensemos sobre a nossa própria inutilidade em todas as outras questões que abandonamos tentando ser úteis em alguma outra.
ou seja, não existe utilidade.
e se fugir é a única coisa que sei fazer, que eu nunca pare de correr. porque sim, fugir não pode resolver tudo, mas não é porque eu fujo de resolver as minhas paradas que preciso tentar resolver todas as outras. não posso resolver os silêncios solitários dos meus chegados e não posso resolver os problemas de saúde da yuqi.
nunca fui muito fã de pique-esconde, gosto mesmo é do infected (pique-ajuda), me enfiar em situações impossíveis de fugir e encontrar uma rota criativa que vai fazer, na próxima tentativa, as pessoas já a terem fechado também e vou ter que criar uma nova e outra e outra. não dá para fugir de todos os problemas, obviamente, mas é muito melhor encontrar na criatividade uma maneira de despistá-los do que se esconder deles. por vezes, o confronto é necessário, inclusive perdi as contas de quantas vezes no infected fugi correndo em direção ao meu perseguidor e esquivei da mão que se aproximava esbanjando meu molejo e meus alongamentos diferenciados. fugir não é uma habilidade para os despreparados, é uma habilidade que exige muito atletismo, muito molejo, muito alongamento, muito estudo e muita criatividade. e muita responsabilidade para saber que não é porque eu sou fluente na lingua da fuga que ela deverá sempre ser usada.
e entender que ela precisa ser usada em outras situações.
e a principal delas é a que mais te atormenta.
no meu caso estamos falando sobre duas coisas: utilidade e “eu”. preciso entender que é impossível ser útil de verdade e que eu posso oferecer muito mais às pessoas e ao mundo sem estar surtado 24/7 por não ter feito nada para ajudar em tal situação ou por ter perdido a confiança de alguém e ter gastado o tempo dela fazendo ela pensar em quão pouco confiável eu era. às vezes, fazer nada, vai melhorar muito mais a vida das pessoas do que ficar tentando montar todos os legos do mundo para fazer acontecer. e às vezes fazer coisas muito pequenas pode fazer geral se divertir muito mais, geralmente somos mais úteis quando não o queremos. e o segundo ponto é totalmente relacionado ao primeiro, porque construí esse “eu” baseado na ideia de “support character”, só que nunca parei para pensar que a maioria dos “support character” se tornaram assim organicamente e não ficando surtados querendo ser úteis e confiáveis o tempo todo, isso só aconteceu naturalmente. e perseguir esse posto tão desesperadamente é muito mais sobre meu próprio ego de sentir necessidade em ser útil do que sobre ajudar qualquer pessoa de verdade, é ter obra toda hora pela mais pura satisfação pessoal.
e se esse “eu”, que era tudo que eu conhecia está quebrado, por que não posso jogar fora? por que um post no facebook 77 anos atrás criticava a geração “atual” por sempre trocar as coisas em vez de consertar? e se eu preciso trocar, porque construir do zero se eu já tenho o melhor dos moldes possíveis para seguir bem na minha frente, colada na minha parede quando acordo, na capinha do meu celular e no plano de fundo dele, no fundo do meu whatsapp e em 137 figurinhas das quais uso apenas 7? se fugir é a única coisa que eu sei verdadeiramente fazer ao ponto de me orgulhar profundamente disso, por que não fugir do “eu” e tentar ser outra pessoa e ver o que a gente descobre no caminho? se a própria yuqi disse que não fosse os ídolos dela, essa song yuqi que conhecemos hoje não existiria, por que não posso levar ao extremo isso?
e dramatizar toda a situação, porque sem lealdade, sem utilidade, sem ser confiável, tudo que me sobra de “eu” é o drama. não conheço ainda um “myself” para “always be proud”, o que eu sei é que tenho muito orgulho do drama e da fuga e preciso retomar os treinos nessas duas coisas, preciso reaprender a fugir de verdade e ter as habilidades corporais e mentais para tal e que jeito melhor que ser drama que replicando um personagem? e não, nunca me orgulhei por lidar bem com as coisas que acontecem, só sinto culpa por ser o tempo todo insuficiente e por tudo que faço ser mais aceno de virtude que algo para se orgulhar.
é, no final esse texto virou uma grande justificativa para mim mesmo que não há nada de errado em querer ser a yuqi, além de um grande desabafo sobre as coisas que acontecem que me fazem me sentir quase o kafka (só pra deixar claro o que significa as coisas que acontecem, caso não estivesse claro o bastante) e, já que ele foi citado, vou já me comprometer com vocês a publicar meu texto de 8 de janeiro e falar sobre o porquê daquilo ser tão íntimo e provar que não falei sobre transgeneridade em “o veredicto” só para pentelhar meu professor, claro que foi para pentelhar também, porque é incrível, mas não foi só isso.
já escrevi demais, vou deixar a yuqi terminar por mim.







