i feel

o texto de hoje é uma propaganda para o meu álbum favorito do i-dle, estejam avisades.

conheci yuqi antes de conhecer o i-dle, mas já ouvia i-dle antes de conhecer a yuqi.

minhas playlists de kpop sempre tinham uma ou outra música delas, porque eu as fazia com base em um único critério: o negocinho. meus amigos concluíram que o tal negocinho é sobre a música ser experimental e fiquei com essa conceituação para falar do negocinho e, nessa pegada, o aespa sempre foi meu grupo favorito de kpop, porque muita coisa muito esquisita acontecia ao mesmo tempo no background das composições. e foi caçando o negocinho que minhas playlists foram dominadas quase exclusivamente por aespa, blackpink, tri.be, mamamoo, i-dle e stray kids (nesta ordem) e depois adicionei um pouco de red velvet, 2ne1 e f(x). e a música com mais negocinho perceptível e a primeira a me chamar muita atenção no i-dle foi queencard.

mas radio dum-dum me chamou muito mais atenção e freak e m.o. e sem nem perceber a música que eu estampava aqui no meu blog era uma propaganda para marca de grife e a capa gerada automaticamente para a minha playlist de kpop era aespa + fendi:

aprofundei-me em outras músicas da yuqi, nos covers, ouvi 圆缺 por meses, porque queria ouvir a yuqi cantando em chinês e é uma música maravilhosa e quando não restava mais yuqi solo para procurar, comecei a acompanhar ela em conteúdos do i-dle e a primeira coisa que me chamou muita atenção foi, sem dúvidas, jeon so-yeon. primeiro pela relação dela com a yuqi, depois pela diferença brutal que existe da soyeon nos clipes e no palco para a soyeon fora do seu habitat natural, onde ela parece sempre encolhida e reclusa e é até díficil conceber que seja aquela a mesma pessoa que assume a liderança e faz a sua presença ser sempre percebida; seja pela combatividade, seja pela confiança, seja pela energia… ela sabe como ninguém se fazer percebida quando canta e esse contraste me fascinou e fascina. e não só. continuei vendo muitos conteúdos do i-dle, recentemente cheguei às gravações em estúdio das músicas e a skin soyeon produtora é algo completamente diferente da stage soyeon e completamente diferente da shy soyeon e completamente diferente de si mesma, porque é quase como se existisse uma soyeon diferente para dirigir cada uma das meninas do i-dle e é quase inadmissível pensar que uma pessoa escreve a maioria das músicas do grupo, comanda a própria carreira solo, busca sempre essa combatividade com a empresa para conseguir aprovação para falar das coisas polêmicas que quer falar e mais um monte de parada e, ainda assim, consegue oferecer uma direção personalizada e com um cuidado especial para cada uma das suas companheiras. chega a ser absurdo e é mais ainda quando pensamos que isso se estende para fora do estúdio também, como pôde ser visto no show em bangkok que a yuqi bateu a cabeça, as fancams da soyeon mostravam ela o tempo inteiro olhando para a yuqi diferente e é impossível saber se ela percebeu que a yuqi estava diferente pela voz, pelo jeito de falar, pelo olhar, pela interação com o público. é impossível saber, porque é imperceptível que algo estivesse diferente, mas a soyeon percebeu.

dá um pouco de inveja saber que eu nunca vou conhecer tanto a yuqi para saber que alguma coisa aconteceu sem ela dar pista nenhuma e que eu provavelmente nunca vou conhecer tanto qualquer pessoa assim, porque minha percepção não é ruim não, mas jamais será a da soyeon. só que dá mais inveja o contrário. quando mergulhei nesses vídeos de produção do i-dle era impossível não pausar a cada 10 segundos e pensar como seria maravilhoso ter uma soyeon dirigindo a minha vida. primeiro pensei isso, porque é evidente o quanto as individualidades de cada membro do i-dle se afloraram nesse tempo e como essa abordagem personalizada tem um papel importante nisso e como ela consegue extrair coisas que as meninas nem sabiam que conseguiam até ela ir lá mostrar. é tentador pensar alguém assim ali no seu ouvido falando faz assim, faz isso, faz aquilo e encontrando aos poucos o potencial que você pode entregar que você mesmo não tinha nem ideia.

(depois de ver esse monte de soyeon diretora/produtora decidi que assim que eu ganhar na loteria vou contratar alguém igual a soyeon para decidir cada passo eu vou dar (já fica a proposta feita, comecem a assistir ela, porque vou pagar bem (se vocês não ligarem para pagamentos exorbitantes já fica a proposta também (porque depois que conseguir reformar a minha casa preciso de alguém para me ajudar a evoluir (não vou conseguir pagar bem, porque sou pobre, mas dá para fazer uns bons acordos bilaterais)))))

acima de querer alguém para encontrar o meu máximo potencial, o motivo que mais me faz querer ter uma soyeon é a liberdade para sentir. porque se tem um negócio que atrapalha a arte é o que a gente chama de “funções administrativas”, não, não estou criticando quem se especializa nisso, muito pelo contrário. a crítica é toda sobre ser muito complicado lidar com a própria criação artística, enquanto a gente tem que administrar tudo; somos responsáveis por avaliar a nossa própria melhora (ou piora), por organizar o nosso tempo, por nos alinharmos ‘editorialmente’, por decidirmos o caminho que queremos seguir, por estudarmos, por aplicarmos etc. isso tudo, enquanto ainda temos que desempenhar outras funções, porque somos pobres e contratar todos esses serviços custaria uma pequena fortuna. e, enquanto precisamos administrar todos os processos e trabalhar para sobreviver, não sobra tempo para sentir, o mais fundamental ingrediente do fazer artístico.

a gente até sente, só não consegue dedicar o tempo necessário para esse sentimento.

e é aqui o primeiro ponto que i feel começa a me bater diferente.

por mais inconstante que eu seja, sempre me vi uma existência muito matemática, muito robótica. desde catarrento, sou horrível em me organizar externamente, mas o interno experimenta os desequilíbrios sempre comedidamente. vez ou outra me atiro em algum barranco sentimental só para me sentir gente mesmo e é sempre muito gostoso, mas puxo as rédeas dessa queda e sempre impeço que ela assuma o controle, por mais que elas já me tenham causado alguns prejuízos, sempre volto para a matemática e calculo o quanto de sentimento eu preciso para não virar robô e para não adoecer e baseio minhas relações sempre em cálculos quase utilitaristas. só que a vida não é matemática e isso fode muita coisa, porque perdi as contas de quantas vezes eu confundi o fato de “eu não ser necessário em um ambiente” com “eu ser um incômodo”, porque quando a gente não sabe sentir direito, essa é uma confusão fácil de acontecer. então estou sempre pulando de galera em galera, porque nos cálculos utilitaristas é sempre muito fácil chegar em uma conclusão quase lógica que as dinâmicas de determinado ambiente funcionam melhor se eu não estiver e também me poupa de sentir. sobrando tempo para as funções administrativas.

e i feel ousa falar de sentimentos pessoais numa indústria que se profissionaliza diariamente em criar corpos perfeitos destituídos de humanidade. uma indústria que vende o pós-humano. i feel fala “mano, tá ligado que nóis sente, né? por trás do personagem, por trás da ‘perfeição’, por trás das restrições alimentares, por trás das horas de treino, por trás de tudo isso, por mais que queiram eliminar o fator humano, jamais conseguirão, porque a gente sente”. não importa o quanto o empresariado “coreano” queira se tornar uma distopia cyberpunk, eles nunca vão conseguir adestrar o sentimento.

é uma escolha muito acertada do álbum dividir a sua composição e produção quase igualmente entre as três principais compositoras do grupo (quase igualmente, porque a soyeon ajudou em outras músicas além das duas que compôs) e os três pares musicais conversarem tanto entre si. Queencard x allergy (soyeon), lucid x paradise (minnie) e all night x peter pan (yuqi).

queencard e allergy

queencard, talvez a música mais famosa do i-dle, a primeira a me conquistar. e hoje talvez seja a minha sexta favorita de i feel. nada do meu amor por queencard se perdeu, mas quando fazemos um mergulho no grupo, percebemos que, tematicamente falando, queencard oferece muito pouco que lion já não tenha oferecido quatro anos antes. óbvio que são músicas distintas e que se apresentam em estilos muito diferentes, em uma fase que nem a formação do grupo era igual e nem as meninas se assemelhavam mais ao que eram antes. mas o tema é extremamente parecido e o grande diferencial de queencard, para mim, é o i feel. porque a música deixa de ser “apenas” sobre se auto-declarar enquanto realeza, tomar para si o título de rainha e reivindicar — de dentro para fora — o próprio poder. queencard ser a lead song de i feel é reivindicar não só o trono, também todas as fragilidades, todos os sentimentos contrastantes e perturbadores que existem na cabeça de uma rainha da própria vida.

a primeira música a destronar queencard do meu pódio foi a sua irmã allergy. assisti muitos vídeos de react ao i-dle e sempre me incomodava bastante alguém reagir a queencard sem reagir a allergy, porque o clipe daquela (apesar de maravilhoso por si só) ganha um significado muito mais profundo e poderoso se assitido depois dessa. não era suficiente para sentir tal desconforto e foi o que me levou a perceber que a verdade é que eu queria muito mesmo era ouvir allergy com mais frequência.

que música, que videoclipe, que letra, que tudo.

a crítica clara à indústria da beleza estampada na tela, somada à letra falando sobre o estado que vivemos de extrema comparação que nos faz querer sempre ser outra pessoa e se sente o tempo todo mal ao usar as intermináveis redes sociais que estão aí nos jogando na cara o tempo todo que não somos bonitos o bastante. a alergia ao espelho. tudo isso escrito por jeon so-yeon, recusada pelo menos quatro vezes na indústria do kpop por “ser feia demais para debutar” e, mesmo depois de debutar, ser atacada insistentemente pela sua aparência, mesmo depois de mostrar qualidades de primeira prateleira como cantora, produtora, letrista, compositora, líder, rapper, dançarina, combatente e… modelo, você é linda, maravilhosa soyeon, entenda.

soyeon, nome que em coreano significa algo como gracioso, harmonioso e que ela canta a plenos pulmões “bireomeogeul my name”… uma maldição ao próprio nome ser uma alusão à beleza e ela ter sido recusada, atacada e criticada inúmeras vezes por não atender aos padrões da indústria.

vocês entendem? queencard sem allergy é uma música que ovaciona a própria beleza, uma música de mulheres que sabem que são gostosas, desejáveis, rainhas, divas. uma música maravilhosa sobre se sentir foda e ser foda por se sentir assim, ou seja, lion, só que escrita depois. quando a gente traz allergy para a conta vira uma outra parada, porque a gente vê que a construção dessa “queencard” que se ama e se acha a pessoa mais foda do mundo é composta por uma estrada de sentimentos que precisam ser vencidos e às vezes eles até continuem ali presentes, mas a confiança de verdade não é sobre ignorá-los é sobre se apossar deles e transformar todos esses obstáculos em degraus para encontrar em si (e não no outro, não na rede social, não na mesa de cirurgia) o que é necessário para dominar o espelho e — com ou sem alergia — tomar o trono de si para si.

lucid e paradise

apesar de allergy ser a música que casa diretamente com queencard, a densidade que esta carrega não diz respeito apenas àquela. todo o album é sobre a construção dessa rainha segura de si, mas detentora de uma segurança e de uma confiança que são construídas pelas fragilidades e pelos sentimentos. por isso, é uma bela decisão que minnie e yuqi fossem responsáveis pela composição de quase 1/3 cada do album. porque sentimento é individual, cada pessoa sente as suas próprias coisas, do seu próprio jeito e a soyeon expressa com muita força o seu próprio caminho, mas ela não conseguiria se apossar com a mesma proficiência de outros pontos de vista, mesmo que seja mais experiente em compor e produzir.

minnie escolhe os sentimentos ao se relacionar com uma outra pessoa.

apesar de se poder interpretar coisas diferentes, pelo conceito do álbum e as músicas conversarem entre si, acredito que em ambas músicas ela fala de romance; duas facetas opostas do romance, que podem ser sentidas pela mesma pessoa. em lucid vemos uma coisa mais sensual, mais sensorial, mais palpável; em paradise o oposto, um amor mental, o que já se entrega no título e é reforçado com a primeira frase da música ser “i’ll be landing on your mind”. enquanto lucid é uma música sexy, que se faz muito visual ao falar de respiração tensa, o grito da fera angustiada, do desejo ardente, do movimento dos corpos; paradise é mais aquela coisa de você é a luz que me ilumina quando estou no escuro, você sorri e minhas dores desaparecem, tempo parado, sorte por te conhecer, meu paraíso.

ambas falam sobre sentimento, uma sobre os sentimentos palpáveis e a outra sobre aqueles quase místicos que fazem um poeta perder noites de sono. a própria escolha dos títulos já faz essa diferenciação entre a “lucidez” e o “paraíso”, mesmo que o desejo seja frequentemente associado à embriaguez (e a própria minnie brinca com isso, ao oferecer um ‘gole de si’ e pedindo para ser ‘enlouquecida’), aqui a lucidez do desejo se dá pelo mundo sensível ser muito mais real que o paradisíaco. (chupa, platão)

all night e peter pan

demorei para gostar de all night como música do i feel. da música em si eu já gostei de cara, mas como música desse álbum ela parecia muito deslocada. até eu descobrir que ela era da yuqi e começar a ouvir relacionando a peter pan.

a primeira vez que ouvi peter pan foi num react da yuqi produzindo a música que escreveu e eu fiquei reparando na letra e pensando “tá tudo bem, meu bem?”, porque é uma música que com muito pouco faz estragos inimagináveis. a tradução do nome no pé da letra seria mais “adulto criança”, mas o grupo optou pela romanização como peter pan e ela fala sobre o sentimento de nunca se sentir crescido; como o corpo cresce, mas a cabeça continua querendo que as coisas sejam mais imediatas e que nunca sintamos que atendemos às expectativas que nos foram colocadas, que nunca retribuamos todo recurso emocional e financeiro que nos foi investido. a música fala sobre como estamos perdidos no caminho do crescimento e mesmo que falemos que somos “criança em corpo de adulto”, isso só vai soar ridículo e vamos nos sentir eternamente incompetentes e nunca vamos conseguir de fato ser aqueles adultos que crescemos observando. o caminho que deveria ser natural parece impossível de ser trilhado.

todas essas inseguranças quanto a nunca se sentir madura o suficiente são caladas em all night, uma música extremamente simples sobre se maquear, encher a cara e dançar a noite inteira até o sol nascer. sem se preocupar em atender a qualquer expectativa ou ser um ideal de adulto que esperam que se seja, só pegue meu número e fala por aí o que você quiser de mim, porque eu vou só dançar a noite inteira. o refrão repetitivo deixa a música muito simples e chiclete.

enquanto peter pan é um mergulho nos sentimentos de insuficiência, uma viagem para dentro de si que nunca se sente pronta para todas as restrições que a vida adulta pede; all night não quer sentir nada disso, ela quer apenas “lose myself” e se divertir sem se preocupar com os julgamentos, com as expectativas ou com os rumores.

i feel

a alergia ao espelho, o amor sensual, o amor romântico, a necessidade de atender às expectativas e a necessidade de calar as vozes internas na balada. i feel é uma construção de sentimentos diversos, às vezes até contrastantes, que se posiciona combativamente numa indústria cada vez mais robotizada (e não falo apenas do kpop, o mercado cultural como um todo cada vez é mais sobre gráficos e números que sobre gente). e traz todos esses sentimentos e outros como ingredientes — e não empecilhos — para se tornar uma queencard. o que é incrível, porque ultimamente temos vivido uma epidemia de coachs se apropriando do estoicismo, do ceticismo e de filosofias e doutrinas orientais para fazer ataques sistemáticos ao sentimento, posicionar o sentir como inimigo de uma vida boa e realizada. e isso se dá porque a censura do sentir é complexa, por isso, fala-se tanto de liberdade de expressão como liberar humorista filho da puta para cometer crimes ou jornaleco de porão para compartilhar fake news e nunca se fala da liberdade de expressão como liberdade para se expressar o que estamos sentindo, nunca se fala de liberdade de expressão para se referir a pegar aquele monte de bagunça dentro da gente e arrancar na forma que a gente quiser; música, pintura, drama, poesia, discurso, pode até mesmo ser piada, por que não? desde que seja uma expressão e não um discurso reacionário disfarçado, só vai.

amo i feel, porque o álbum transforma queencard em um manifesto que supera em muito o empoderamento. i feel reivindica humanidade para queencard, reivindica a super lady como ser que sente e, se não sentisse, não seria super, seria só um autômato vazio de sentido e cheio de números.

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